domingo, 26 de janeiro de 2014

O Panteão



O panteão de chuteiras - Crónica de João Miguel Tavares na edição de catorze de janeiro de 2014 do Jornal Público


“Se me perguntarem quem é que prefiro ver no Panteão Nacional, se Óscar Carmona se Eusébio, eu voto obviamente em Eusébio. O Panteão Nacional, embora parco em sepulturas (são apenas dez), mesmo assim consegue o prodígio de ter gente que não merecia lá estar, fruto da época turbulenta em que foi criado (1916) e de meio século de ditadura.

Mas inverter a discussão sobre se Eusébio deve ou não ir para o Panteão argumentando, em delírio hiperbólico, que ele é muito maior do que a Igreja de Santa Engrácia e merece melhor companhia é, digamos assim, uma entrada com os pitons à frente, que não me parece que seja muito útil ao debate.

Talvez seja ingenuidade minha, mas eu simpatizo com a ideia republicana de existir um local digno e prestigiado onde homenagear os heróis da pátria, e aborrece-me quem disso desmerece. Qualquer país decente deve prestar tributo àqueles que “se vão da lei da morte libertando”, para citar um senhor que lá não está e merecia estar – é uma questão de identidade nacional e de respeito pela memória. E é também por isso que me faz alguma impressão imaginar o Panteão, daqui a 70 ou 80 anos, cheio de homens do futebol. Para o ano é Eusébio. E num futuro que se quer distante há-de ser Cristiano Ronaldo e José Mourinho, que hoje em dia têm uma projecção internacional como Eusébio nunca teve. 

A existência de um critério compreensível é muito importante, e a Lei n.º 28/2000, que regula as honras do Panteão Nacional, define-o com bastante clareza: ele destina-se “a homenagear e a perpetuar a memória dos cidadãos portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao País, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade”.

A não ser numa muito vaga definição de “expansão da cultura portuguesa”, tenho muitas dúvidas que Eusébio caiba com facilidade naqueles critérios. E ainda bem que não cabe. Não me entendam mal: eu adoro futebol, sou sócio do Benfica e tenho consciência da importância de Eusébio na história do desporto português. Mas recuso terminantemente equivaler tudo, numa espécie de terraplanagem estética e ética, que coloca um futebolista, por mais brilhante que ele seja, no mesmo patamar simbólico, enquanto herói de uma pátria, em que estão os artistas, os cientistas ou os defensores da liberdade.

Eusébio não é Aristides de Sousa Mendes, que não está lá. Jogar bem à bola não tem o mesmo valor de salvar milhares de vidas. Eusébio não é Salgueiro Maia, que não está lá. Jogar bem à bola não tem o mesmo valor de derrubar uma ditadura e recusar todas as prebendas. Eusébio não é Amália, que está lá. Jogar bem à bola não tem o mesmo valor que elevar a única criação artística genuinamente portuguesa – o fado – a patamares até hoje inultrapassados.


Panteão, em grego, significa o conjunto de todos os deuses (pan+theos). E se formos guiados pela etimologia, talvez faça sentido, no século XXI, enchê-lo de figuras ligadas ao futebol, essa verdadeira religião dos tempos modernos. Mas não consigo aceitar essa opção sem sentir que algo de fundamental se está a perder. Não é nada contra Eusébio. É tudo contra o relativismo da contemporaneidade, ainda que sob o alto patrocínio da Assembleia da República.”

domingo, 19 de janeiro de 2014

Blogue de humor gráfico internacional publicou algumas das minhas caricaturas

Há algum tempo atrás um Site da Bósnia de humor gráfico, solicitou-me alguns trabalhos de caricatura para publicar. Quem quiser pode consultar neste endereço:http://www.maxminus.com/hermiacuteno-felizardo.html



domingo, 5 de janeiro de 2014

Homenagem a Eusébio





Caricatura de homenagem a Eusébio. Na elaboração desta caricatura tinha duas hipóteses: fazer uma abordagem ao Eusébio, no auge da sua carreira, quando envergou com brilhantismo a camisola do seu Benfica, ou então, na fase final (já algo debilitado) da sua vida. Optei pela primeira abordagem.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Artigo de opinião do Jornal de Nisa





Acabar é uma arte. E, como todos sabemos, esta função nem sempre é bem assumida pelos seus executantes, como veremos mais adiante, neste mesmo texto.
Nestas ultimas semanas, os portugueses têm assistido, estupefactos, a uma avalanche de acontecimentos surreais, na realidade da política nacional que, chegam mesmos a ultrapassar a própria ficção, não olhando a meios, para atingir os fins.
Tal como nas artes mais nobres, na política houve tempos em que havia, uma coisa chamada de “bom senso”, caracter, compromisso ou sentido de responsabilidade, mas que o tempo e as novas gerações têm feito desaparecer do panorama político-partidário, substituindo-o por outros conceitos mais vulgares, e próprios dos momentos que vivemos, como o clientelismo ou o servilismo, isto é, a força e o poder do capital sobre o cidadão e o homem livre.
Cada vez são menos, aqueles que têm sentido de missão e, desejam abraçar uma causa ou um compromisso com a sua comunidade, de forma a defende-la, resolvendo e lutando pela resolução dos reais problemas dessas populações. E, para isso existem governos, com poder executivo. O que contraria, o momento atual, em que não sabemos, literalmente, quem governa, este pedaço de terra.
Então, passemos a explicar, primeiro demite-se o Ministro de Estado e das Finanças, Victor Gaspar, numero dois do governo, afastando-se, sem antes, tornar publica uma polémica carta, dirigida ao Primeiro-Ministro, onde se retrata a si próprio e à sua errada politica, aplicada durante dois longos e pesadíssimos anos, sobre os portugueses.
Logo a seguir, demite-se o Ministro de Estado e dos Negócios Estrageiros, Paulo Portas, número três do governo, o qual não é aceite, pelo primeiro-ministro.
O presidente da República, fala ao país, num discurso codificado, somente acessível a seres extraterrestres adaptados com a box da MEO. O que a meu ver, só pode mesmo, ser entendida como uma medida de prevenção contra as escutas, criando uma situação de caos político, nunca antes assistido, num país democrático. Limitando-se a fazer uma espécie de jogos florais, dirigida por uma política inexistente, fazendo-se passar como um fantasma, que paira na política nacional, há mais de trinta anos!
Num outro registo, mais irritada e crispada, nos brindou a segunda figura do Estado, a Presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, na sessão plenária da passada quinta-feira, gritando de forma soberba, com os manifestantes, que se encontravam nas galerias, para que estes abandonassem as mesmas os mais rápido possível. Assunção Esteves não se enervou apenas. Caiu-lhe uma mascara que tinha mantido até então, e veio ao de cima o seu lado mais autoritário, fazendo uma sugestão, uma declaração e uma citação, após o acontecimentos.
A sugestão foi que se repensasse a possibilidade do público deixar de ter acesso à casa da democracia, a declaração foi a de que "não fomos eleitos para sermos amedrontados, desrespeitados". E a citação foi de Simone de Beauvoir: "Não podemos deixar que os nossos carrascos nos criem maus costumes".
Mas, afinal o povo é soberano, ou não? A constituição diz que sim, mas alguns políticos mais bolorentos, ainda pensam o contrário. Acabar, terminar ou saber sair no tempo certo, pode ser uma virtude, por isso a palavra tem que ser devolvida ao cidadão, já!


 JOSÉ LEANDRO LOPES SEMEDO

* Cartoon de Hermínio Felizardo in http://felizardocartoon.blogspot.pt

Portugal profundo